domingo, 23 de setembro de 2012

um dia qualquer


a minha sentença
é ser proscrita entre castas
e direitas criaturas
nenhum corte atravessa a minha face
nenhuma lama em seus sapatos
nenhum sangue em minhas retinas
descrever ciúmes
cenas de possessão
jogos cabalísticos
os símbolos têm sua hora marcada
e nosso encontro está assinalado
está gravado em nossa cara
com a brasa do ferro ardente
afinal a maldição abocanhou-nos
desatolando-nos a decadência
desentranhando o veneno das nossas veias
o eco da nossa inquietude
alcançará um dia o senso comum?
abraço-me a joquim louco
e escondo-me em seu quarto de vidro
protegendo-me do temporal de mediocridades
o frio dos olhares congela-me os ossos
mas sobre eles verterei todo o meu ódio

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

antes de chegar a primavera

a casa parada no tempo 
com suas cadeiras de ferro
e seus cachos de rosas brancas perfumadas 

de dentro, 
o olhar congelado do velho 
observa a passagem do tempo 

cruz das almas, 28 de agosto de 2012 (tarde)

sábado, 30 de junho de 2012

Ao longo do canal


Para Bartira e Noee


A bordo de uma nau improvável, projeto de um sonhador, zarpamos da marina de Camdem. São 3 da tarde.
O intrépido marujo ata e desata cordas e faz soar o apito. Estamos de partida.
Nas margens, os olhares se voltam para nós. Sentada no velho sofá que outrora ornamentou a sala de alguém, aceno para os transeuntes quase me sentindo uma rainha. O verde outrora brilhante do sofá se acomoda na plana balsa de tosca madeira. Os mais curiosos lançam-me a pergunta: “Você quem fez?” Compenetrada, aponto o nosso comandante.
Entre goles de vinho, fragmentos da metrópole desfilam ante nossos olhos incrédulos. Um bêbado tenta embarcar e nos mostra a língua ao ser impedido; namorados se beijam quase ocultos pela vegetação da margem; corredores ofegantes em constante luta para manter a boa forma; noivos em brinde e juras de amor eterno (nas fotos do álbum aparecerá a nossa nau); ciclistas e seus cachorros compenetrados; desconhecidos que acenam.
O vôo inesperado do cisne branco em nossa direção nos tira o fôlego.


Mais adiante o desafio do longo túnel escuro. A jovem amiga do capitão equilibra-se na proa com uma longa vara nas mãos para orientar a navegação e evitar abalroadas nas velhas paredes úmidas. Inscrições e grafites surgem ao serem alcançados pelos refletores improvisados. Longos minutos de escuridão até que a luminosa saída se aproxima.

A meio caminho nosso comandante troca seu traje informal e a indefectível boina pela indumentária de um velho marinheiro saído de um romance de Jorge Amado. Aperta a buzina do seu barco-teatro ao se aproximar do destino final.
Após três horas de jornada e quase uma dezena de eclusas para abrir e fechar, o barulhento motor silencia. No porto, o capitão é saudado por outros velhos marinheiros e seus cães de estimação. A noite se avizinha. Abotoamos nossos casacos e caminhamos sob a chuva fina peculiar no entardecer londrino.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Muda

Muda by rainha morbida
Muda, a photo by rainha morbida on Flickr.

Tao estranha e silenciosa como foi sua vida foi sua partida dela.
A noticia me pegou de surpresa, ela sempre fora saudavel (embora miasse pouco) e estava em forma para o seus 15 anos.
Muda se foi sem deixar descendentes e com sua partida termina a "dinastia" de Simpatico Estranho.
Saudade, muda!

sábado, 7 de abril de 2012

livros, livros a mancheia

A poesia silenciosa dos fantásticos livros voadores.

sexta-feira, 23 de março de 2012

extremos

há tempos não abria a pasta rosa, razão de ser deste blog.
hoje encontrei um dos seus guardados: uma carta escrita sobre um poema cujo título nomeia a presente postagem.

"releio três cartas: uma azul, uma cinza e uma fogosamente vermelha. Fico agora pensando nas coisas tantas que você falou. No rio que nunca é o mesmo, nos poemas febris inspiração dos madrugadores, pirados como nós, no comentário aceso do Corpo de Luciano (Dos pássaros), no DESEMBARQUE (desejo), no soluço, no sonho, no disco. Ouço Legião, duas vezes por dia, todo dia. Um
Fico trista pela demora em escrever. Perdi o pique, não estou bem. Coisas íntimas. As férias foram péssimas. Não consegui sequer sonhar. 
Até a próxima interrogação.
Um soluço"

A distância alimentava a saudade e a vontade de escrever.
Hoje as pessoas estão a um click e as cartas saíram de cena.

terça-feira, 20 de março de 2012

Despedida

O sol se punha por entre as folhas da Mata de Cazuzinha
enquanto as cigarras entoavam um canto de despedida
para o velho companheiro que partiu para Timbuktu.


Adeus, Doug!

quarta-feira, 14 de março de 2012

olho animal

Irresistível! Ver o mundo pelo olhar de um gato.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

espera

espera by rainha morbida
espera, a photo by rainha morbida on Flickr.

Todo banco vive a espera de não ser só.
Todo banco vive a espera de não ser só banco.
Todo banco vive à espera.