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Soneto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda 
Nada existe com mais serenidade
 
Mesmo parado ele caminha ainda
 
As selvas sinuosas da saudade
 

De ter sido feroz. À sua vinda
 
Altas correntes de eletricidade
 
Rompem do ar as lâminas em cinza
 
Numa silenciosa tempestade.
 

Por isso ele está sempre a rir de cada
 
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
 
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
 

Acaba, é o antigato; porque nada
 
Nada parece mais com o fim de tudo
 
Que um gato morto.
 

Florença, Novembro de 1963
 
Vinicius de Morais, Livro de Sonetos







Visconde, saudade (16.11.2011)

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