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sextas-feiras santas e violeiras


Nas sextas-feiras santas ela cortava paletas a partir de chifres de boi, e sempre antes do nascer do sol.
Numa simulada entrevista com Helena Meirelles, Uilcon Pereira a transporta para o mundo de Àssombradado. Biutificada, a violeira conta que seu prazer era tocar nas zonas, nos bordéis do poeirão de estrada.
Nivelei meu destino com cavalgadas e homens de gatilho fácil, tocando por alguns tragos de cachaça. Aos trinta anos, resolvi, sozinha, bagunçar o coreto, mascar fumo, viver no cio e pintar o sarambé.
No delta do Àssombradado Velho, todo mundo dançava armado. Numa pândega, um peão enlouquecido veio perto e queria enforcar a vileira-chefe. Até hoje, quando ouço o bater dos guizos, da tropa, do berrante, dos vaqueiros estalando a relha, penso “Ai meu Deus, se eu fosse um homem tava lá no meio.” Minha mãe fala “Helena Biutrice de Tróia Meirelles, és meio homem meio muié”. Eu respondo “Eu não sei nunca o que sou, sei que sou fanática por isso de tocar violão e viver junto com a peonada solta por aí”.

Velha violeira, hoje era dia de cortar paleta de chifre de boi.
Mas a essa hora, ela deve estar em Àssombradado dando uma outra entrevista ao velho Uilcon Biute Pereira.

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