segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

AS CARTAS E OUTROS QUASE MONÓLOGOS

Esse título provisório de um provável livro a ser publicado num futuro longínquo expressa minha fixação por cartas. E isso em tempos de quase totalidade de comunicação virtual pode ser visto como um anacronismo. Abre o provável livro um poema intitulado “Para não escrever uma carta de amor”, seguido de uma pequena peça com dois personagens incomunicáveis denominada “As cartas” e vários outros escritos insubordinados a gênero. Escolhi para publicar hoje uma prosa poética (?!) cujo título é RESPOSTA ALGUMA À CARTA NÃO RECEBIDA. Trata-se de um texto escrito num só fôlego que obriga o leitor a fazer o mesmo pois não conta com pontuação, sequer uma vírgula para alívio do olhar e do pensamento.

sei que agora enquanto você faz não-sei-o-quê eu atravesso este monótono canavial devorando palavras com olhos de dentes maduros e não importa com que esquecimento você se lembra de mim como já não têm importância os caminhões cheios de corpos de homens e de mulheres moldados a movimentos compulsórios e gestos viciados talvez por eu não ser bela e sábia como ligéia ou discretamente sensual à maneira de nastajia kinski e sem a maldição ardente de uma betty blue (verdadeiramente não importa? tento responder que sim não importa embora disto não esteja convencida) pois quem sabe eu tenha sido abocanhada pelo lugar-comum nas transmutações insólitas caindo na vala das paixões baratas e sendo indiscutivelmente banal mas também não tem qualquer importância se ainda (com) partilhamos a mesma paixão pela crueldade e pelos contos de cortázar ou algum livro de david cooper se já não há nenhuma esperança – devo dizer vontade? – de falarmos sobre cinema ouvindo disco de tango e bebendo cerveja até a embriaguês para depois vararmos as madrugadas vomitando borboletas na mesma estrada deserta cheia de gritos silenciosos do espanto ou quem sabe ainda estejamos cercados pela estranheza que nunca nos abandona embora eu não mais seja tão surpreendente como os contos de cortázar e esta possa não ser uma carta comum porque nada entre nós é comum mas uma carta na garrafa a ser lançada ao mar porém à falta de mar lanço-a num rio de águas barrentas que talvez encontre o caminho do oceano pois dissera-me que é assim “que se efetuam as comunicações profundas, lentas garrafas que erram em lentos mares, tal como lentamente esta carta abrirá caminho em busca de você com seu verdadeiro nome” em algum lugar sem rua com trilhos longe das portas do mar

Para ouvir ao som de Cure of pain, da banda Morphine

Mark Sandman, autor da canção e baixista da banda, morreu em consequência de um ataque fulminante do coração, durante uma apresentação de sua banda em 1999, na cidade italiana de Palestina, aos 46 anos de idade.
http://www.last.fm/music/Morphine/_/Cure+for+Pain

5 comentários:

anjobaldio disse...

Este foi um dos mais belos poemas que já li. Teatro da crueldade puro.

angela disse...

Vou recobrar o folêgo e depois comento...
quem sabe encontra seu amor neste voo
abraços

hijakskank disse...

Cacetada este texto e a trilha sonora é perfeita....apnéia total...vou lá tomar um chá de capim santo e já volto...

Ana Lúcia Porto disse...

Caramba...!! Que eu saiba em desertos não há rios nem mares...
Eu vou é beber uma água...
Beijos,
Ana Lúcia.
PS: Estou no Coletivo, se quiser tomar um café, bater um papinho e ler a minha carta, ficarei contente.

Margarida Piloto Garcia disse...

Esta é a prosa poética que amo!!!