sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

I was dreaming in my dreaming




restos... pandarecos... cacos... pedaços... vampirização de textos sem a audácia do mestre da biutice+, ora vampirizado semvergonhamente
espalhando pitadas, atirando cascas de laranja na chuva das urânias
“uma voz que atravessava séculos, tão pesada que quebrava o que tocava, tão funda que suspeitei que soasse em mim com ressonância eterna; uma voz enferrujada com o som de pragas e dos gritos ásperos que brotam do delta do último paroxismo do orgasmo.” *
assoviando tulipas roxas na cara patética do número um
risco de asco
arremesso medos num jogo de opostos, o avesso,
o inverso da razão
o pedaço cuspido da maçã que alguém mordeu
o lado escuro do espelho

hoje não fitei teus olhos vesgos
SERÁ QUE ALGUÉM SABE QUEM EU SOU?
Nem o mundo, nem mesmo o sol podem mostrar simultaneamente ambas as faces.
EU SOU A TUA OUTRA FACE
Com teus olhos de pedra
meio da madrugada o perigo: buraco negro das palavras
corria o risco de fazer poesia
visitam-me as criaturas da noite
e nenhum gole de vinho para saciar o pânico
a noite fora calma e nem chegamos a lou reed
a gata negra invade o sono deslizando felínica nos lençóis
há tempos não vejo seu riso palhaço
um tanto pior que os delírios noturnos
as vozes que ouço são cachorros uivando pra lua escandalosamente cheia que eu não vejo
sou cachorro efêmero vagando nas dobras da noite
implorando um fiapo de carinho
NINGUÉM ME VÊ
não sou um anjo caído nem retalho de asa perdida
não sou penugem que voa
onde está meu melhor amigo que não pousa na janela e sorri mesmo que um riso cínico?
a voz do menino grita meu nome a pleno sol e ainda é noite
não sei vencer: copio sonhos alheios com a mediocridade barroca de quem destrói de dia o que construiu ao anoitecer



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+ estação Uilcon
* retalhos de Anais Nin

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Acho que vou fazer um filme


[para ouvir ao som de Múm]

Escrevo sob o signo da melancolia, uma saudade inexplicável de não sei o quê (desculpem o acento, força do hábito), uma sensação estranha de vazio, de... que foi que eu fiz? O que fazer? Cadê tudo? Chega!
Esta será uma postagem longa, apenas os pacientes e os que amam verdadeiramente a poesia lerão até o fim e, possivelmente, comentarão.

Abri a pasta rosa, peguei um dos seus escritos e li. Era uma carta falando do meu texto intitulado As Cartas. Já postei um fragmento aqui. Essa carta recupera pedaços da peça que escrevi, a qual trata do encontro de duas mulheres quase estranhas e muito diferentes. Já tentamos montar essa peça várias vezes mas nunca deu certo. Acho que vou fazer um filme.

“... li a peça e várias vezes reli. A solidão de Zoé não seria a profunda consciência da solidão de nós mesmas, que escrevemos e que tornamos a poesia nossa amante, pois sentimos sem compreender a efemeridade de tudo o que nos cerca?”
(...)
“Conheço-a através dos seus escritos e amo-a através dos seus versos”.
E recorta um trecho de As Cartas. [devo colocar quantas aspas?]
““... Querida amiga, para ti o meu pensamento é um pensamento de ausências...” Eu diria que em mim a sua presença entranha-se através desses versos com tamanha inteireza que ausento-me de mim para em você permanecer por vezes. (...) Em muitos lugares eu amei e contudo, não fui vista. Talvez isso nos aproxime.”

Adiante, cita Lautréamont: Escrever é agir com a lógica impecável de um movimento de ataque – qual um bicho que vai cercando, acuando a presa ao mesmo tempo que a mantém imóvel. E se esta sucumbe não é só porque se sente atraída pela precisão dos gestos do atacante mas porque nêles capta as forças que lhe dão forma e que surpreendem.

“Para dizer-lhe da emoção que em mim aflora os seus versos, retorno a Lautréamont e junto com ele prossigo a carta.
Guardo dúvidas a respeito de nós. Pois como conciliar a frieza de vossos silogismos com a paixão quase cruel que deles se desprende?” No entanto, ao correr sobre o papel a mão vai dizendo sim. Quando a carta terminar o encontro já estará marcado. Dispenso-me de assinar, e nisso sou poeta. Vivemos em uma época demasiado excêntrica para que, por um instante, haja espanto com o que poderá acontecer. Tenho curiosidade de saber como conheceste o local onde habita nossa imobilidade glacial, rodeada por uma longa fileira de salões desertos, imundos ossários de minhas horas de tédio. Como dizê-lo? (...) Armemo-nos de paciência, na espera do instante que me lançará no entrelaçamento de vossos braços, inclino-me diante de vossos versos, que abraço.””
Abraços [é noite]


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A verdadeira rainha mórbida

Diamanda Galás, filha de pais gregos ortodoxos, criada em San Diego, Califórnia onde, ainda criança estudou jazz e música clássica. Artista performática e controversa esteve no Brasil em 1998.
Ativista de grupos de combate à Aids, tatuou na mão esquerda os dizeres "We Are All HIV+" (Somos Todos HIV+) desde que seu irmão morreu, vítima da doença, em 1986.

Durante uma manifestação do ACT UP (grupo gay de militância) na St. Patrick's Cathedral, em Nova York, em 1989, Galás foi presa por "distúrbio da ordem pública" e em 1990, após uma apresentação no "Festival delle Colline", na Toscana, o governo italiano a denunciou por "blasfêmia contra a Igreja Católica Romana". "Satã mora mesmo nos EUA", ironizou a cantora, "agora mais do que nunca".

Para botar mais lenha na fogueira, em 92, a revista norte-americana "Vanity Fair" publicou uma foto sua, feita por Annie Leibowitz, da cantora nua, pendurada a uma cruz em meio a chamas.

Essa mesma fúria e inconformismo que Galás expressa em sua vida de militante foram transpostos para a música. Desde seus primeiros trabalhos, "Wild women with steak knives" (Mulheres loucas com facas de cortar carne) e "Tragouthia apo to aima exon fonos" (Canção do sangue dos assassinados), de 1979, Galás fala de morte, perda e solidão, temas desenvolvidos nos trabalhos que vieram a seguir: "O isolamento pode matar", ela diz.

A discografia da cantora conta com 12 discos (todos lançados em CD pela Mute Records). Em "The divine punishment", de 1989, ela utiliza textos bíblicos musicados para mandar um recado irônico àqueles que viam a Aids como uma "punição divina".

Seu disco mais recente, "Malediction and Prayer", traz uma insólita regravação de "My World Is Empty Without You", sucesso das Supremes, além de poemas de Pasolini e Baudelaire musicados por Galás.

A fúria é a única resposta adequada aos deuses injustos que governam a vida dos mortais, afirma Galás.

http://musica.uol.com.br/especiais/1998/12/01/ult1541u47.jhtm