terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Acho que vou fazer um filme


[para ouvir ao som de Múm]

Escrevo sob o signo da melancolia, uma saudade inexplicável de não sei o quê (desculpem o acento, força do hábito), uma sensação estranha de vazio, de... que foi que eu fiz? O que fazer? Cadê tudo? Chega!
Esta será uma postagem longa, apenas os pacientes e os que amam verdadeiramente a poesia lerão até o fim e, possivelmente, comentarão.

Abri a pasta rosa, peguei um dos seus escritos e li. Era uma carta falando do meu texto intitulado As Cartas. Já postei um fragmento aqui. Essa carta recupera pedaços da peça que escrevi, a qual trata do encontro de duas mulheres quase estranhas e muito diferentes. Já tentamos montar essa peça várias vezes mas nunca deu certo. Acho que vou fazer um filme.

“... li a peça e várias vezes reli. A solidão de Zoé não seria a profunda consciência da solidão de nós mesmas, que escrevemos e que tornamos a poesia nossa amante, pois sentimos sem compreender a efemeridade de tudo o que nos cerca?”
(...)
“Conheço-a através dos seus escritos e amo-a através dos seus versos”.
E recorta um trecho de As Cartas. [devo colocar quantas aspas?]
““... Querida amiga, para ti o meu pensamento é um pensamento de ausências...” Eu diria que em mim a sua presença entranha-se através desses versos com tamanha inteireza que ausento-me de mim para em você permanecer por vezes. (...) Em muitos lugares eu amei e contudo, não fui vista. Talvez isso nos aproxime.”

Adiante, cita Lautréamont: Escrever é agir com a lógica impecável de um movimento de ataque – qual um bicho que vai cercando, acuando a presa ao mesmo tempo que a mantém imóvel. E se esta sucumbe não é só porque se sente atraída pela precisão dos gestos do atacante mas porque nêles capta as forças que lhe dão forma e que surpreendem.

“Para dizer-lhe da emoção que em mim aflora os seus versos, retorno a Lautréamont e junto com ele prossigo a carta.
Guardo dúvidas a respeito de nós. Pois como conciliar a frieza de vossos silogismos com a paixão quase cruel que deles se desprende?” No entanto, ao correr sobre o papel a mão vai dizendo sim. Quando a carta terminar o encontro já estará marcado. Dispenso-me de assinar, e nisso sou poeta. Vivemos em uma época demasiado excêntrica para que, por um instante, haja espanto com o que poderá acontecer. Tenho curiosidade de saber como conheceste o local onde habita nossa imobilidade glacial, rodeada por uma longa fileira de salões desertos, imundos ossários de minhas horas de tédio. Como dizê-lo? (...) Armemo-nos de paciência, na espera do instante que me lançará no entrelaçamento de vossos braços, inclino-me diante de vossos versos, que abraço.””
Abraços [é noite]


6 comentários:

anjobaldio disse...

Lindo texto, dilacerante quanto aquelas cartas. Vamos fazer um filme? Grande abraço.

Jo (do Recife) disse...

Hummmm!!! Esses cineastas... Queria ver essa dupla em ação!
Kissssssssssss a lot

graça sena disse...

Jo daria um bom Lautrèamont, vamos a Recife fazer umas tomadas.

Marreta disse...

Graça: e eu nem sabia! e você nem avisou...Como sempre o bom gosto impera, como os sons diferenciados.
"Do escritor alcóolatra e nunca publicado" Carlinhos

Jo (do Recife) disse...

Esse Lautrèamont é o conde uruguaio que morreu aos 24 anos (vi agora na net)? nem sabia dessa biba. Estarei aguardando... quero ser seu assistente de direção... com maior prazer. beso

Anônimo disse...

Já que sou marreta, você é Gracinha.Também quero participar desse filme. Um abração