sábado, 27 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

AS CARTAS E OUTROS QUASE MONÓLOGOS

Esse título provisório de um provável livro a ser publicado num futuro longínquo expressa minha fixação por cartas. E isso em tempos de quase totalidade de comunicação virtual pode ser visto como um anacronismo. Abre o provável livro um poema intitulado “Para não escrever uma carta de amor”, seguido de uma pequena peça com dois personagens incomunicáveis denominada “As cartas” e vários outros escritos insubordinados a gênero. Escolhi para publicar hoje uma prosa poética (?!) cujo título é RESPOSTA ALGUMA À CARTA NÃO RECEBIDA. Trata-se de um texto escrito num só fôlego que obriga o leitor a fazer o mesmo pois não conta com pontuação, sequer uma vírgula para alívio do olhar e do pensamento.

sei que agora enquanto você faz não-sei-o-quê eu atravesso este monótono canavial devorando palavras com olhos de dentes maduros e não importa com que esquecimento você se lembra de mim como já não têm importância os caminhões cheios de corpos de homens e de mulheres moldados a movimentos compulsórios e gestos viciados talvez por eu não ser bela e sábia como ligéia ou discretamente sensual à maneira de nastajia kinski e sem a maldição ardente de uma betty blue (verdadeiramente não importa? tento responder que sim não importa embora disto não esteja convencida) pois quem sabe eu tenha sido abocanhada pelo lugar-comum nas transmutações insólitas caindo na vala das paixões baratas e sendo indiscutivelmente banal mas também não tem qualquer importância se ainda (com) partilhamos a mesma paixão pela crueldade e pelos contos de cortázar ou algum livro de david cooper se já não há nenhuma esperança – devo dizer vontade? – de falarmos sobre cinema ouvindo disco de tango e bebendo cerveja até a embriaguês para depois vararmos as madrugadas vomitando borboletas na mesma estrada deserta cheia de gritos silenciosos do espanto ou quem sabe ainda estejamos cercados pela estranheza que nunca nos abandona embora eu não mais seja tão surpreendente como os contos de cortázar e esta possa não ser uma carta comum porque nada entre nós é comum mas uma carta na garrafa a ser lançada ao mar porém à falta de mar lanço-a num rio de águas barrentas que talvez encontre o caminho do oceano pois dissera-me que é assim “que se efetuam as comunicações profundas, lentas garrafas que erram em lentos mares, tal como lentamente esta carta abrirá caminho em busca de você com seu verdadeiro nome” em algum lugar sem rua com trilhos longe das portas do mar

Para ouvir ao som de Cure of pain, da banda Morphine

Mark Sandman, autor da canção e baixista da banda, morreu em consequência de um ataque fulminante do coração, durante uma apresentação de sua banda em 1999, na cidade italiana de Palestina, aos 46 anos de idade.
http://www.last.fm/music/Morphine/_/Cure+for+Pain

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

rOSES

rOSES

hoje não abri a pasta rosa, hoje não tem cartas, não tem poemas
apenas a poesia rude da crueldade, do estranhamento
a poesia espinhenta e voraz das diferenças
não tenho tatuagens a marcar o corpo
mas cicatrizes
riscos e rugas

encontre uma poesia de rua e leia ao som de dEUS

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

revirando a pasta rosa

Janelas do Subúrbio. Foto: Bartira Sena
reabro a pasta rosa e saco, não aleatoriamente, mas de forma deliberada um dos seus escritos: poderia ser a carta-cobra (uma tripa de papel com vários metros de comprimento com texto escrito em duas linhas) ou uma em papel de jornal (entenda-se que não se trata exatamente de papel-jornal mas aquelas folhas nas quais os
jornalistas escreviam suas matérias/entrevistas) marcada com uma boca vermelha, ou ainda um poema-cartão com ilustração de Nelson Magalhães Filho.

escolhi o poema-cartão de Cyro Mascarenhas Rodrigues e ilustração Héber Mendes. Outro dia publico um poema de Cyro. no verso, um manuscrito sem data:

"Releio uma carta na falta de novas. Acho que de fins de julho pois fala das realizações galeneanas e das imorredouras saudades cruzalmenses. Ouvia Vila-Lobos e você não imagina que atmosfera +* circulava na sala. No Salão Nobre, M e M dão posse ao passos. Aqui sigo os teus e me transporto para o aquário dos loucos dos políticos, dos cidadãos (ditos) responsáveis e viajo no ônibus da irresponsabilidade nos becos e ruas, sento nas calçadas molhadas pelas chuvas de julho e converso sobre a divisão de tarefas com um bando de cães vadios, todos brancos enormes que mandam e pedem notícias de um pintor chamado Percula a quem eles assustaram certa vez quando cercavam uma cadela no cio. Hoje é sexta feira. Vou tomar uma cachacinha (mesmo que seja de Santo Amaro) com D. Lourdes da barraca – (lembra dela?) la no Parque da Sumauma** onde ela agora vende sonhos a gatos vagabundos como eu. Vou procurar Tingo Seco e filmar no beco um filme de amor com musica de Todeschini. A caneta secou o papel acabou. Até a próxima fartura. * Este túmulo foi para enterrar a porra duma vírgula que eu coloquei onde não devia ** Já ouviu falar?"

o grandecíssimo nem assinou
gato vagabundo à procura de sonhos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

lápis, papel e outras coisas


em tempos de virtualidade comunicacional, o espaço dos lápis, canetas, papel abdicada de texturas, dos cheiros, numa plácida rendição

resgatar a pasta rosa de elásticos rotos e recheio denso, pleno de cartas
bilhetes
escritos
tantos
múltiplos em cores
em formas
caligrafias e emoções
díspares

ao acaso sacar da pasta
um dos papéis amarelados
aquele dobrado em oito

“Cruz. 05 de novembro (...) Manhã de Sol. Lá em Salvador tá acontecendo PASOLINI EM CIRCUITO CULTURAL. Não posso ir. Eu reli “Os bons cães”. Acho interessante. Lembrei-me de Percula. Não é que eu esteja “desanimado e desesperançado” com a cultura cruzalmense. (...) Uma “cigana” leu a minha mão. (...) Quanto ao Baudelaire você pode ir elaborando o texto. Tentarei escrever alguma coisa. As H.Q. Bem, se não for muito caro, pode mandar os Moebius. (...) Também acho que as minorias podem transformar o mundo. (...) Já li Borges. Demais. Você recebeu o livro O BANHEIRO? Por incrível que pareça ainda falta terminar os seus: Zona Erógena, A Casa Verde e Malone Morre. A Anarquia da Fantasia do Fassbinder já li várias vezes: adoro o alemão boêmio. A informação daquele outro livro do C.F. Abreu é só esta: “Coleção Autores Gaúchos. I. Estadual do Livro. Vol. 19”
Até a próxima.”

acaba sem dizer mais nada nem assinou

Escrito ao som de Yoshimi battles the pink robots, com Flaming Lips
http://www.lastfm.com.br/music/The+Flaming+Lips/_/Yoshimi+Battles+The+Pink+Robots+Pt.+1

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Apresentação

Olá,
este será mais um espaço que utilizarei para exposição de idéias, gostos e desgostos. Será, principalmente, o lugar da poesia, da música, das expressões artísticas que caminham à margem dos meios de massa, do bom gosto, do que não tem rótulo, do que não tem nome.
Inauguro esta apresentação com uma poema publicado na revista Reflexos de Universos nº 60


o silêncio

das almas
repousa
sobre a cidade

cala-se

o metal dos sinos

cala-se

o riso

dos meninos


um suspiro
finado
move
as teclas
do piano
frente à mesa

servida de dor

graça sena


Para ler ao som da banda Sex Gang Children
http://www.myspace.com/sexgangchildren666